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Blog - 08.05.2020
Frases feitas e expressões para se evitar nos seus conteúdos
                                       
 
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O trabalho diário com as palavras exige um cuidado que compete com a pressão do tempo, com a disposição de quem escreve ou fala e com a sua bagagem de vida e leitura. Às vezes, até mesmo sem perceber, o jornalista ou comunicador faz uso de expressões que são espécies de 'muletas' textuais ou de fala, para ajudar a colocar as ideias no lugar. O problema é que várias são desnecessárias ou inapropriadas. O leitor/espectador/ouvinte nem sempre percebe, mas vale aqui o alerta sobre algumas situações que tem ocorrido com certa frequência, para que o profissional pelo menos pense duas vezes antes de utilizá-las.

“Quem disse que”: normalmente, essa expressão vem seguida de uma pergunta ou frase preconceituosa, simplista ou inventada, sem autor definido, pois se tivesse um ele deveria ser citado. Exemplos: “Quem disse que lugar de mulher é na cozinha” ou “Quem disse que você não pode mudar o mundo?”. É uma estratégia para introdução de assunto, mas, enfim, é possível buscar outros caminhos.

“Para se ter uma ideia”: expressão absolutamente inútil e pode ser sumariamente cortada em todas as situações em que é ou foi empregada. Basta tentar. Se você a escreveu ou a ouviu, apenas ligue o ponto anterior com o posterior do texto ou da fala e veja se a informação permanece fazendo sentido. Permanece, não é? Pois então...

“Quebrou o protocolo”: talvez alguns comunicadores nunca tenham visto um protocolo. Trata-se uma programação básica de ações a serem desempenhadas por uma autoridade, estabelecendo um cronograma. Uma visita do presidente a Porto Alegre, vai ter às 13h a reunião com o governador no Palácio, às 15h a inauguração da ala hospitalar no saguão institucional, às 16h uma entrevista coletiva na sala de imprensa, às 17h o vôo de partida para Brasília. Nem tudo o que o presidente faz nessa jornada de tempo é uma quebra de protocolo (os trajetos que percorre, o que come ou deixa de comer, ou interações como posar para fotos e distribuir autógrafos), porque o protocolo não vai em minúcias, não diz tudo o que se fazer tintim por tintim. É um guia.

“Nada melhor que”: artifício jornalístico para apresentar uma ação que parece complementar, compensar ou oferecer alívio ao que veio antes. O preocupante é que ela tenta apresentar um consenso, encerrando uma ideia. Veja essa notícia do Globo: “Sábado é Dia do Rock e nada melhor que unir corrida e música para comemorar”. Coloque-se no lugar do leitor, ouvinte ou espectador, e pergunte-se se realmente não há mesmo nada melhor que aquilo que você disse.

“Entre mortos e feridos salvaram-se todos”: perdi a conta de quantas vezes ouvi e li isso no jornalismo esportivo, especificamente. Não que deva ser necessário explicar, mas não há mortos e feridos se todos se salvaram.

"Se depender de": o problema no uso dessa expressão é a relação de causa e efeito em geral inexistente. Uma reportagem na TV mostrou, por exemplo, como crianças divertiam-se com aulas de dança por vídeo durante a pandemia do coronavírus. O repórter encerra a matéria com a frase "Se depender dessas crianças, a pandemia vai passar logo logo". Em primeiro lugar, não depende dessas crianças. Em segundo lugar, dançar não resolveria a questão.

O eterno dilema dos estrangeirismos: nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno. Não é preciso proteger a língua da pátria como seu salvador, nem abraçar qualquer palavra de outro idioma sem questionamento. A dica é apenas conferir se realmente a língua portuguesa não oferece uma alternativa que expresse exatamente o que se quer dizer. Mindset, por exemplo, tem ótima tradução, é mentalidade, modo de pensar. Budget é orçamento, approach é abordagem. Insight tem significados mais amplos, mas, dependendo do caso, talvez também haja a palavra em português que se encaixe, como lampejo, estalo, revelação, compreensão súbita.

Diego Castro, jornalista

Tags: jargão, chavão, frase feita, estrangeirismo, comunicação, escrita, jornalismo


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