Ascensão da IA: batalha entre desemprego e consumo
Ascensão da IA: a batalha entre desemprego e consumo
Estamos avançando em ritmo acelerado rumo a uma era de automação sem precedentes. Da IA generativa criando campanhas de marketing a sistemas autônomos gerenciando cadeias de suprimentos, o mundo corporativo está obcecado por uma única métrica: a eficiência. A cada semana, um novo relatório destaca quantos milhões de empregos poderiam ser simplificados, otimizados ou totalmente substituídos pela inteligência artificial.
Para um CFO, isso parece o paraíso: redução de custos operacionais, automação em diversas frentes e produtividade 24 horas por dia. No entanto, para quem analisa o cenário econômico mais amplo, essa hiper-eficiência revela um enorme ponto cego sistêmico. Se massas de trabalhadores estiverem desempregadas, quem exatamente comprará os produtos e serviços de sua empresa?
Joseph Fuller, professor de Harvard, diz que ainda não vemos demissões em massa na escala que se temia porque companhias fazem uma implementação desajeitada da IA, como se fosse um google turbinado apenas, sem grandes efeitos sobre a produtividade. A professora Karen Dynan, também de Harvard, diz que vai haver desemprego por causa da IA, mas acredita que as pessoas conseguirão encontrar novos postos. Doug Elmendorf, ex-diretor do Escritório de Orçamento do Congresso, acha que o que vimos até agora no mercado de trabalho em relação à inteligência artificial tem muito pouco poder preditivo sobre o que veremos no mercado de trabalho por causa da IA ??daqui a cinco ou dez anos.
O que os dados indicam até agora, pelo menos nos Estados Unidos: de um lado, uma análise do Goldman Sachs indica que o efeito da IA apaga por volta de 25.000 empregos por mês, somando 200 mil desde 2023, principalmente as vagas de nível júnior. Grande parte do impacto não vem de demissões em massa, mas de funções que simplesmente deixam de ser criadas. Já análises econômicas publicadas por veículos como o The Economist ponderam que a tecnologia já criou cerca de 1 milhão de novos empregos nos EUA.
No artigo A Armadilha das Demissões na IA, os professores de Economia na Universidade de Boston, Gerry Tsoukalas e Brett Falk pensaram numa fórmula matemática endereçando o problema. O ponto de partida foi esse: se a IA substituir trabalhadores humanos mais rapidamente do que a economia consegue reabsorvê-los, corre-se o risco de corroer a própria demanda do consumidor da qual as empresas dependem. “Saber que isso pode acontecer não evita que as empresas embarquem na onda. Num cenário econômico competitivo, as empresas calculam o quanto podem reduzir seus custos, mas arcam apenas com uma fração da perda de demanda; o restante recai sobre as concorrentes. Isso pode levar à substituição dos trabalhadores muito além de um nível tolerável”, argumentam.
Na visão deles, como as empresas dificilmente exercitarão autocontrole num cenário em que podem obter grandes vantagens competitivas com a IA, será preciso estabelecer uma força externa para isso. “Se nada for feito corremos o risco de um exacerbamento de desigualdades e instabilidade social.” Os autores sugerem que um imposto pigouviano sobre a automação (tributo criado para corrigir uma falha de mercado causada por efeitos colaterais que prejudicam a sociedade) pode ser solução para resolver o problema.
O verdadeiro teste da revolução da inteligência artificial não será medido pela sofisticação de seus algoritmos, mas pela sustentabilidade do ecossistema que ela deixa de pé. Se a busca cega pela hiper-eficiência transformar trabalhadores em custos descartáveis, as empresas vão automatizar sua própria obsolescência, operando em mercados fantasmas, sem poder de compra. A economia reside no ciclo vital onde salários se convertem em consumo. Regular essa transição, portanto, não é um freio ao progresso, mas uma salvaguarda para que a tecnologia sirva como motor de prosperidade coletiva.
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